Acho que tenho mania de torcer para o time que está perdendo (será por isso que sou flamenguista?). Torcer pelo mais forte não muda nada, portanto é uma opção que nunca me atraiu. Também nunca vi graça em aceitar “as coisas como elas são”. Sempre fui um indignado, um inconformado: se algo não está de acordo com o que penso ser correto ou melhor, então acredito que deva mudar. Parece bem lógico e simples, não parece?

Não é fácil defender mudanças, mesmo que sejam para melhor

Tim Maia - Um país onde existe pobre de direita não pode dar certo
Tim Maia – Um país onde existe pobre de direita não pode dar certo

Lógico, provavelmente seja; mas não é tão simples assim. Defender mudanças não é fácil, mesmo que sejam indiscutivelmente para melhor. É incrível, mas a maior parte das pessoas parece sempre disposta a rechaçar qualquer idéia que represente uma mudança no atual estado de coisas; seja em casa, na empresa, no bairro ou com relação à estrutura social e econômica de um país ou do mundo. Ainda que a situação atual beneficie apenas uma pessoa ou pequeno grupo em detrimento da maioria, e a pessoa em questão faça parte da maioria, uma proposta de mudança soa como um insulto. Seria altruísmo da parte dela, ao pensar no “grande sacrifício” que é fazer parte do grupo de cima? Duvido muito. Afinal, por que esse altruísmo está sempre voltado ao time que já está ganhando?

Bom, isso não é de hoje. É célebre a frase do cantor e compositor Tim Maia, que viveu os tempos da ditadura militar: “Este país não pode dar certo. Aqui, prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita”. Embora deva-se reconhecer que os representantes da esquerda ainda precisam melhorar muito para merecer adesão popular massiva, isso não justifica que pobres, pessoas sem capital (obs.: renda não é capital), avacalhem para o outro lado e defendam com tanta firmeza o capitalismo e seus patrões.

Armandinho -- Pobre de direita, a história se repete
Armandinho — Pobre de direita, a história se repete

Milionários em potencial: síndrome de Disneylândia

Não é de hoje e também não é exclusividade do Brasil. Eu não me lembro agora qual é exatamente a frase, mas diz-se que é muito difícil uma mudança de sistema na América Latina; pois o pobre aqui não se vê como oprimido, e sim como um milionário em potencial. Parece que os livros de autoajuda venderam bastante por aqui. É uma pena que as pessoas não parem pra pensar que, se muita gente se tornar milionária, a inflação vai praticamente derreter o valor do milhão; e todos voltam para a classe onde estavam.

Se é este o caso, eu diria que essas pessoas vivem uma síndrome de Disneylândia. Estão todas crentes de que, com trabalho duro e honestidade, farão o seu primeiro milhão e, em seguida, muitos outros. Isso até acontece de vez em quando, e o caso é geralmente papagaiado pelas revistas de negócios como exemplo de que a riqueza dos ricos é produto de muito esforço e dedicação, e a pobreza dos pobres é a conseqüência natural da incompetência e da preguiça.

O que eu não consigo ver é onde um cirurgião plástico é tão mais importante do que um pediatra, um jogador de futebol é tão mais competente que um professor ou um corretor imobiliário é tão mais esforçado do que um bombeiro. Não consigo encontrar justificativa para que um ganhe centenas, milhares de vezes mais do que o outro; embora, neste sistema sem sentido, haja muitas explicações.

O latino americano milionário em potencial não consegue enxergar que nem mesmo os Estados Unidos, geralmente sua nação preferida, não se resume a Wall Street, Miami e a Disneylândia. Lá existe muita, muita pobreza também. E a riqueza se deve, em grande parte, às expensas de outros países sem defesa contra seu poder militar (e econômico), explorados por em torno de um século. Sorte dos países nórdicos, que não tiveram parasitas como Portugal e EUA às suas costas — e puderam, entre outras coisas, usufruir do desmonte da Europa oriental.

Capitalistas sem capital: hamsters (tente com Leninada!)
Capitalistas sem capital: hamsters (tente com Leninada!)

Capitalistas sem capital: hamsters

Com essas idéias na cabeça, o cenário está montado para que os capitalistas sem capital passem a vida como aqueles hamsters presos em gaiolas — correndo, correndo, correndo; atrás do seu “sonho americano”, um queijinho pendurado na frente da esteira; correndo sem sair do lugar.

Para alimentar esta ilusão (um tempero a mais no queijinho), evocam-se os grandes “gênios” da modernidade, como Bill Gates e Steve Jobs. Bons tempos, quando os maiores gênios da Humanidade eram pessoas de vasto e diversificado conhecimento, que faziam grandes descobertas científicas e refletiam profundamente sobre questões importantes. Assim foram Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Nikola Tesla. Hoje, para ser reconhecido como “gênio” e cultuado por milhões, basta inventar algo que o faça bilionário. Na verdade, não precisa nem inventar; copiar, apropriar-se da idéia alheia… Não importa: se o fez mais rico do que os outros, também o faz melhor do que os outros.

E assim, seguem-se as grandes revistas de negócios, com exemplos de “sucesso” na capa. Mais “grandes personalidades” e matérias dizendo o quanto essas pessoas são dedicadas e esforçadas, enquanto todos aqueles que mal tem tempo para ler revistas desse tipo são incompetentes vagabundos; assim como o que fazem é sem valor.

Guardiões voluntários do status quo

Aí, quando você questiona esse estado de coisas na linha do tempo do seu Facebook, aparece um exército inteiro de capitalistas sem capital para defender o sistema e os “pobres coitados” que “assumem os custos e riscos” e carregam o mundo nas costas. Oh, meudeus, que pena eu tenho dos empresários, que vida difícil a deles!

Uma vez eu vi um conceito, no documentário Zeitgeist Addendum, de “self appointed guardian of status quo” — guardião voluntário do status quo: uma pessoa sempre pronta a defender a manutenção da situação vigente. Segundo o documentário, “ovelhas que já não necessitam de um cão pastor”. Aquelas pessoas que, ao invés de usarem sua inteligência para pensarem em como fazer um mundo melhor, passam a vida criando argumentos para defender o enorme sacrifício daqueles que mais ganham com a situação atual (mas experimente falar do sacrifício que era a vida do escravo negro no Brasil); para nos lembrar de todas as coisas maravilhosas que devemos ao sistema atual e sem as quais não podemos viver (jogos para celular, Instagram, carrinho de bebê que não precisa ser empurrado e transgênicos); e do quanto é gratificante poder trabalhar 40 horas por semana, com sua vida engessada por um cartão de ponto, em algo que só tem significado para o senhor do engenho, sem poder acompanhar o crescimento de um filho, tendo de dar satisfação para ir a um médico ou do tempo que ficou no banheiro.

Você corre, corre sem sair do lugar? Tente com Leninada!
Você corre, corre sem sair do lugar? Tente com Leninada!

Fala sério!!! Existe coisa muito pior na vida que pagar impostos e encargos trabalhistas!!! Tipo enfrentar 3 horas de ônibus para ir ao trabalho e 3 pra voltar!!! E a gente não pode nem expôr os pensamentos sem vir um monte de chatos encher o saco?

Guardiões voluntários do status quo, se vocês escolheram isso, ótimo, eu não tenho nada a ver com isso! Só não venham encher o meu saco pensando que, por causa de um link do mises.org, eu vá fazer o mesmo!

Você corre, corre e não sai do lugar. Agora tenta com Leninada!

Pra fechar com um pouco de bom humor, tudo isso me faz lembrar do comercial do hamster da Red Bull. Mas, em vez do energético, vamos trocar pela Leninada.

Pois nada como um pouco de crítica ao capital (apesar de eu não ser fã da linha leninista, mas é o suficiente para a piada) para mostrar ao hamster que a vida pode ser muito mais do que correr sem sair do lugar. Para abrir sua mente para tudo que existe fora da caixinha do sistema!

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