Esse texto foi escrito e me passado pela minha amiga Josephina Carneiro (perfil do Facebook), do Rio de Janeiro.

Um conto (real) de Natal em tempos de desigualdade social.

— Tia Jô!

Ouvi uma voz de um homem me chamando. Estava na loja perto do Projeto Cateretê. Olhei para trás, a voz de homem era a de um ex-aluno.

A última vez que o vi foi quando ingressou no Colégio Pedro II. Ele estava preocupado porque a foto tinha que ser com uniforme e ele não tinha como comprar.

Consegui tudo. Ficou faltando a calça jeans. Então fomos juntos ao shopping.

A reação dele foi bastante insólita. Tive a certeza que nunca tinha entrado em um shopping. Sentia-se pouco a vontade. Era fácil perceber o porquê. Negro e pobre, ocupando um local o qual esse tipo estereotipado não é bem vindo.

Aos poucos fomos entrando nas lojas e compramos tudo o que faltava. Inclusive os presentes dos outros irmãos, um total de cinco.

Antes de sairmos do shopping fomos lanchar. Ele estava muuuuuuuuito feliz! Sentia-se protegido.

Quando ingressou no projeto tinha apenas 7 anos. Uma energia. Uma alegria. Sempre com um sorriso bem largo e lindo!

Conforme o tempo passava revelava todo o seu talento. Uma voz maravilhosa, capaz de encantar a todos. Tocava flauta como ninguém e violão também. Era capaz de reproduzir qualquer harmonia. Fazia parte da ala de compositores mirins. Um gênio! Essa é a verdade. Os olhos sempre com um brilho muito luminoso, como se o mundo estivesse a ser percebido e desbravado nos seus mínimos detalhes. Tinha sede de saber!

Sua mãe era linda! Lembrava uma negra típica africana. Sempre com um lenço colocado nos cabelos arrumado em forma de um turbante.

Mas quando lancei meu olhar sobre ele… Constatei que realmente tinha se transformado em um homem lindo! Possuía a jovialidade, mas o semblante era rígido. Parecia que tinham se passado uns 20 ou 30 anos. Mantinha a mesma cor do ébano de um clarinete. Altivo apesar dos sofrimentos, continuava lembrando um Rei típico dos seus ancestrais.

Mas os olhos, os olhos, aqueles olhos…

Estavam ofuscados pela dor e angustia. Um ar de preocupação beirando o desespero. Bem mais magro embora se percebesse ainda os ombros largos.

Ele estava agitado, preocupado porque precisava ir até o Rio de Janeiro para tentar um estágio e não possuía a passagem. O tempo estava passando precisava estar lá no horário. Dei-lhe um abraço apertado. Era mais um filho que estava a minha frente.

Contou-me rapidamente que quase perdera a guarda da irmã caçula. E disse com voz firme:

— Mas agora eu fiz 18 anos, “tia”. Posso ter a guarda dela e de minha outra irmã.

Sua mãe faleceu de câncer pouco antes do projeto ser totalmente destruído e da minha enfermidade se instalar. Terminara o ensino médio e com certeza entraria muito bem classificado em uma Universidade Federal. Contou-me tudo isso em alguns minutos.

Seu pai vivia agora com outra mulher em outro lugar e não ajudava em nada. Aliás, nunca ajudou.

Abri minha carteira e vi que tinha apenas 10 reais. Mas me lembrei que tinha crédito no Rio Card. Saquei da carteira a simples quantia e disse a ele: Vai meu filho! Consiga esse estágio para se acalmar. Estarei agora por aqui. Perto de vocês.

Eu sempre digo que um mau político mata muito mais do que um bandido qualquer. Destroem vidas, sonhos e esperanças. Bendito seja esse povo que sobrevive a base de pura teimosia, abandonado a própria sorte. Bem distante da preocupação de seus governantes.

Onde está o verdadeiro sentido do Natal? -- cena do vídeo clipe de "Amerika", do Rammstein
Onde está o verdadeiro sentido do Natal? — cena do vídeo clipe de “Amerika”, do Rammstein

Onde está o verdadeiro sentido do Natal? Perdeu-se no tempo? Deveríamos resignificar o verdadeiro significado do Natal. Recordar aquele que revolucionou, ou pelo menos tentou revolucionar a história da humanidade. Vamos tentar recordar que ELE pregou e lutou pela igualdade entre os homens, a justiça social, a alegria simples da fraternidade entre os semelhantes. Onde se escondeu o sentido do Natal? Hoje, o festejo natalino está dominado pelo sistema capitalista que gira o comércio e transforma uma data que deveria nortear o verdadeiro sentido na natureza humana solidária, invertendo o “TER” pelo “SER”.

Portanto, peço-lhes que nesse natal quando estiverem reunidos com os seus, desfrutem da alegria, comam, bebam, abracem seus parentes e amigos, distribuam os presentes. No entanto reservem apenas um minuto do seu tempo para refletir sobre a situação dos filhos da exclusão, da miséria, da solidão.

Desejo a todos um Feliz Natal

Josephina Carneiro

Eu também

Um ser pensante

Josephina CarneiroReflexõesnatalEsse texto foi escrito e me passado pela minha amiga Josephina Carneiro (perfil do Facebook), do Rio de Janeiro. Um conto (real) de Natal em tempos de desigualdade social. --- -- Tia Jô! Ouvi uma voz de um homem me chamando. Estava na loja perto do Projeto Cateretê. Olhei para trás, a voz...Mais que artigos de opinião, uma busca pela Verdade.