Dilma e o pedido de impeachment: corrupção
Dilma e o pedido de impeachment: corrupção

Introdução

O artigo que lerão abaixo pertence ao professor Sirio Lopez Velasco (perfil na Wikipedia), e chegou até mim pela amiga Claudia Bistrichi (perfil do Facebook), sua aluna. Na posição de ex-simpatizante do PT, totalmente decepcionado pela corrupção no partido — desde aquele caso da sede de Porto Alegre –, identifico-me com o conteúdo desse texto. Por isso, enquanto não arrumo tempo para escrever minhas próprias palavras sobre o assunto, publico estas críticas do professor Velasco que me agradam pelo equilíbrio e, principalmente, porque partem de um ponto de vista verdadeiramente Socialista.

PT, movimentos sociais e a corrupção

Resolvi escrever estas breves linhas porque acho que está na hora de esclarecer meu pensamento perante muitos colegas do Brasil e da América Latina, a quem respeito pela sua atividade filosófica, acadêmica e social. Alguns destes colegas se admiram perante a abertura do processo de impeachment contra Dilma (a partir de denúncia impetrada por duas pessoas, uma das quais é um jurista co-fundador do Partido dos Trabalhadores), impulsionado por um notório corrupto, e respaldado por outros tantos corruptos que compraram ou foram comprados na votação da emenda que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC).

Desde que estourou o Mensalão no Governo Lula, chamou-me a atenção o fato de que, nas manifestações dos partidos da autodenominada esquerda e dos movimentos sociais, parou-se de criticar a corrupção e de pedir punição exemplar para os culpados — assim como já havia cessado de falar e militar cotidianamente em prol do socialismo. Essa atitude continuou a se manifestar no escândalo da Lava-Jato (envolvendo roubos astronômicos em prejuízo do dinheiro público — ou seja, dinheiro do povo — cometidos por altos funcionários da Petrobras, empreiteiros, políticos do primeiro escalão, e banqueiros).

Lula e Maluf - PT e seus aliados na direita
Lula e Maluf – PT e seus aliados na direita

Ora, o PT e a autodenominada esquerda que o acompanhou (ou o tinha acompanhado num primeiro momento, para depois se aliar a facções da direita — distintas daquelas às quais aliou-se o PT) no Governo do país, tinham chegado lá pregando uma postura e política ativa contra a corrupção. Como muitos altos dirigentes do PT e dessa suposta esquerda foram flagrados, juntos ou separadamente, com altos dirigentes da direita — incluindo os do aliado governamental PMDB e também da oposição composta dentre outros, pelo partido de FHC e Aécio (o PSDB), o PP e o Democratas — nesses crimes de corrupção, entende-se que as estruturas partidárias dirigidas pelos corruptos tenham cessado de falar e de se mobilizar contra a corrupção. Mas, por que deixaram de fazê-lo os movimentos sociais tradicionalmente vinculados a essa esquerda? Uma possível resposta consiste na hipótese de que os seus dirigentes, de uma ou outra maneira, também usufruíram da corrupção. Outra resposta é a de que não quiseram “favorecer a direita”; ora, de qual direita se fala, se o PT desde o início está aliado no Governo Federal com o PMDB e, nos últimos tempos, também com outros direitistas tão notórios e corruptos como Collor e Maluf?

Bancos e empreiteiras

Não se pode tapar com a peneira o fato de que Lula (repetindo a mesma prática que FHC) diz ter ganho com “palestras” para grandes bancos e multinacionais nos últimos anos, dezenas de milhões de reais; isso não é claro indício de corrupção? Tampouco pode-se tapar com a peneira o fato de que, por ação ou omissão, Dilma é responsável pela indicação ou confirmação dos altos dirigentes da Petrobras e das instâncias partidárias e/ou parlamentares que agora revelam-se corruptos de primeira linha; daí que ela possa ser considerada, sim, corresponsável pelos atos de corrupção cometidos por esses ladrões, que sempre foram afastados dos seus cargos depois que a Polícia federal e a Justiça os descobriu — e nunca antes, por uma ação preventiva da Presidente.

Ora, para colocar só um exemplo, desde pelo menos dois anos antes da Copa do Mundo de Futebol, realizada no Brasil em 2014, todo o país comentava que os estádios construídos com bilhões de dinheiro público estavam superfaturados; então pergunta-se: só a Presidente não ouviu esse insistente comentário? Por que ela nada fez para apurar a fundo os fatos e punir os responsáveis? Tomara isso aconteça agora em fins de 2015, quando uma das grandes empreiteiras envolvidas na construção desses estádios e de outras obras públicas no Brasil e outros países (a Andrade Gutierrez) confessou o crime e o pagamento de propinas, no quadro da investigação da operação Lava-Jato.

Política econômica e externa: um passo para frente, dois para trás

Na política econômica, depois de um período de expansão dos direitos sociais e de inclusão de muitos dos mais pobres (que, no entanto, nunca conseguiram sair da pobreza, tornando-se dependentes da ajuda estatal, que por sua vez passou a ser grande ferramenta catadora de votos) inaugurado no segundo governo de FHC e reforçado nos dois governos de Lula e no primeiro de Dilma, assistimos no segundo governo de Dilma a um progressivo corte de direitos sociais e de investimentos em áreas fundamentais para o povo, como é o caso da educação; tudo isso para garantir o superavit primário para pagar uma estratosférica dívida pública que ninguém auditou. Ora, os latifundiários do agronegócio, as multinacionais, os banqueiros e os grandes empresários, que já vinham ganhando muito dinheiro nos governos de FHC, nunca ganharam tanto como nos governos de Lula e Dilma. Repetiu-se assim o ciclo de tantas sociais-democracias européias e latino-americanas; isto é: como não se saiu do capitalismo, a um período de relativo bem-estar popular sucede sem falta um ciclo de penúria popular, enquanto os ricos se fazem cada vez mais ricos.

Há de se dizer que uma diferença entre os governos de Lula e Dilma, por um lado, e os de FHC e (a postura da atual oposição de direita e de parte da falsa esquerda) por outro, radica na sua política externa, pois se Lula e Dilma praticaram uma política de boa amizade para com Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia, e respaldaram (em especial através da UNASUL e CELAC) a integração regional soberana, uma chegada da atual oposição ao governo empurraria o Brasil para os braços do império ianque-OTAN, dando as costas ao países acima citados e à citada integração regional soberana. Mas uma eventual volta de Lula à Presidência pouco serviria a aqueles países e à referida integração, pois a sua imagem pública está tão desgastada pela corrupção que, em vez de ser um amigo exemplar, seria uma companhia pouco recomendável.

Uma nova esquerda

Na Argentina, dos escândalos do neoliberalismo que estouraram no menemismo e pós-menemismo, multidões saíram às ruas para gritar “que todos vão embora” (“que se vayan todos”, referindo-se a todos os políticos dos grandes partidos da época). O Brasil precisa começar a gritar o mesmo. Não para chamar um golpe militar de direita, mas para reencontrar-se com a utopia de uma sociedade socialista, na qual o dinheiro público sirva para satisfazer as necessidades do povo, e o cargo público seja um serviço público prestado ao povo, com sacrifício dos interesses individualistas, como o demonstrou na sua pregação e na sua prática o Che Guevara.

Essa imensa e urgente tarefa precisa acontecer conjuntamente com a construção de uma nova esquerda, audaz e inovadora nas suas formas de ação e organização (incluindo novos nomes e formas de atuação das lideranças populares, e também ações capazes de furar o muro tecido dia-a-dia pelos latifúndios midiáticos da direita), para que o Brasil possa superar essa pré-história da Humanidade que é o capitalismo, e participar da implementação do Socialismo (pluricultural, do século XXI, em perspectiva ecomunitarista), que com muitas dificuldades e esperança estamos tentando reinventar na América Latina, ao tempo que reforçamos a edificação da Pátria Grande (diversa mas unida na solidariedade e com postura independente no concerto das nações).

Diante desses imperativos, pouco importa se Dilma acabará sendo expulsa ou não da Presidência através do processo legal do impeachment (embora muito mais democrático é o referendo revogatório existente na Venezuela), e se Lula será ou não candidato a sua sucessão; para o bem do Brasil e da América Latina, os dois e o conjunto dos políticos da direita e do atual “establishment” brasileiro (incluindo os da falsa esquerda governante — ou ex-governante — como o PT) devem ir embora. Para abrir as grandes alamedas à marcha do Povo e ao futuro pós-capitalista da História; nessa marcha o povo deverá estar preparado para usar todas as formas de luta que se revelarem necessárias, dependendo da crueldade da oligarquia local, da oligarquia continental e do sócio-patrão de ambas: o imperialismo ianque-OTAN, que agride incessantemente, junto com aquelas oligarquias, todos os processos que cheirem a anticapitalismo — ou simplesmente o digno soberanismo –, no nosso continente e no mundo.

Prof. Sirio Lopez Velasco

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