Erich Fromm: Psicanálise e Sociologia
Erich Fromm: Psicanálise e Sociologia

O texto a seguir foi extraído do livro “Meu Encontro com Marx e Freud”, do filósofo e psicanalista Erich Fromm. Sendo Karl Marx e Sigmund Freud suas maiores influências, Fromm dedica este livro a expôr, sob diversos aspectos, semelhanças entre os pensamentos de ambos.

Até este momento do livro, já haviam sido abordadas a importância da dúvida, o poder da verdade, e o humanismo como princípios orientadores e motores da obra de Marx e Freud. Por meio de uma analogia genial, Erich Fromm disserta sobre uma outra característica comum aos dois sistemas: sua abordagem dinâmica e dialética da realidade. Analogia esta suportada em dois exemplos, um na área da Psicologia e outro na Sociologia.

O exemplo do homem apaixonado: behaviorismo x psicanálise

Imaginemos um homem que se tenha casado três vezes. O processo é sempre o mesmo. Apaixona-se por uma moça atraente, casa-se com ela, é extremamente feliz por um curto tempo. Começa, então, a queixar-se de que sua mulher é dominadora, que limita sua liberdade etc. Depois de um período onde alternam brigas e reconciliações, apaixona-se por outra moça, na verdade, muito parecida com a sua mulher. Divorcia-se e casa-se com seu segundo “grande amor”. Mas, com pequenas modificações, repete-se o mesmo ciclo, e ele se apaixona novamente por um tipo de moça semelhante, divorcia-se novamente e desposa seu terceiro “grande amor”.

E ocorre ainda uma vez o mesmo ciclo, ele se enamora de uma quarta moça, convicto de que dessa vez trata-se de seu verdadeiro amor (esquecendo-se de que tivera a mesma convicção de todas as outras vezes), e pretende desposá-la. Que diríamos a essa última moça, se ela viesse pedir-nos a opinião sobre as possibilidades de um casamento feliz com ele?

Há várias interpretações para o problema. A primeira é puramente behaviorista: seu método é deduzir o futuro pelo comportamento passado. Sua argumentação seria: como ele já deixou a mulher três vezes, é igualmente possível que o faça uma quarta vez, portanto é muito arriscado desposá-lo. Tal argumentação, empírica e prudente, tem muitos pontos a seu favor.

Mas a mãe da moça, ao empregá-la, pode ter dificuldades em responder a um argumento da filha. Tal argumento é o de que, embora sendo perfeitamente verdade que ele assim procedeu três vezes, não se segue que fará o mesmo dessa vez. Esse contra-argumento poderia alegar que ele se modificou — e quem dirá que uma pessoa não se pode modificar? — ou que as outras mulheres não eram do tipo que ele pudesse amar profundamente; enquanto ela, a última, tem realmente afinidades com ele. A mãe não teria argumentos convincentes para opor a esse raciocínio. Na verdade, ao conhecer o homem e ver como está apaixonado pela sua filha, e ouvi-lo falar com grande sinceridade de seu amor, até mesmo a mãe poderá modificar sua opinião, e adotar a posição da filha.

As interpretações, tanto da filha como da mãe, são ambas não-dinâmicas. Ou baseiam uma suposição num comportamento passado, ou em palavras e atos presentes, sem poder provar que suas previsões são algo mais do que simples suposição.

Qual é, em contraposição, a interpretação dinâmica? Seu ponto essencial é penetrar além da superfície do comportamento passado ou presente, e compreender as forças que criaram esse padrão de comportamento no passado [nisto se distingue a psicanálise – nota do blogueiro]. Se elas ainda existirem, é de supor que o quarto casamento terminará como os anteriores. Se, por outro lado, tiver havido uma transformação nas forças que condicionam esse comportamento, teríamos de admitir a possibilidade, ou mesmo a probabilidade, de um resultado diferente, a despeito do comportamento passado.

Quais são essas forças de que falamos aqui? Nada têm de misteriosas, não constituem especulações abstratas. São empiricamente identificáveis, se estudarmos o comportamento da pessoa, de forma adequada. Podemos supor, por exemplo, que o homem não havia rompido a ligação com sua mãe; que é muito narcisista, com uma profunda suspeita de sua própria masculinidade; que é um adolescente já velho, que necessita constantemente de admiração e afeição, de modo que, ao encontrar uma mulher que lhe satisfaz tais necessidades, aborrece-se com ela logo depois de feita a conquista; necessita de novas provas de sua atratividade, e portanto, de procurar outra mulher que lhe seja motivo de reafirmação. Ao mesmo tempo, é realmente dependente das mulheres, tem medo delas; e, por isso, uma intimidade prolongada lhe dá a sensação de estar aprisionado e encadeado.

Bases do pensamento de Fromm: Marx e Freud
Bases do pensamento de Fromm: Marx e Freud

As forças em ação, no caso, são seu narcisismo, sua dependência, as necessidades provocadas pela sua dúvida em relação a si mesmo, que levam ao tipo de ação que descrevemos. Tais forças, como disse, não são de modo algum resultado de especulações abstratas. Podemos observá-las de muitas formas: examinando os sonhos, as associações livres, as fantasias; observando expressões fisionômicas, gestos, modos de falar, e assim por diante. Freqüentemente, porém, não são visíveis diretamente, mas sim passiveis de dedução. Além disso, só podem ser percebidas dentro do quadro de referências teórico em que têm lugar e sentido. E o que é mais importante, não somente não são conscientes, como estão em contradição com o pensamento consciente da pessoa em questão. Esta se convence sinceramente de que amará a moça para sempre, que não é dependente, que é forte e tem certeza de si. Assim, a pessoa mediana pensa: se um homem sente realmente que ama uma mulher, como prever se ele a deixará depois de algum tempo, pela referência a entidades míticas como “fixação materna”, “narcisismo”, e assim por diante? Não serão nossos olhos e ouvidos melhores juízes do que tais deduções?

Analogia — estudo de caso: Alemanha

O problema na Sociologia marxista é precisamente o mesmo. Também aqui o exemplo será a melhor introdução. A Alemanha deflagrou duas guerras, em 1914 e em 1939, nas quais quase conseguiu conquistar seus vizinhos ocidentais e derrotar a Rússia. Depois de um êxito inicial, ela foi derrotada, ambas as vezes, em grande parte pela força esmagadora dos Estados Unidos. A economia alemã foi seriamente atingida, e, não obstante, em ambos os casos houve uma rápida recuperação, e de cinco a dez anos depois da guerra o pais reconquistara um poderio econômico e militar semelhante ao que dispunha antes da guerra. Hoje, pouco mais de quinze anos depois de uma derrota mais esmagadora que a sofrida na guerra de 1914-18, a Alemanha é novamente a mais forte potência industrial e militar (depois da União Soviética) na Europa. Perdeu parte considerável de seu antigo território, e mesmo assim está mais próspera do que nunca.

A Alemanha de hoje tem um regime democrático, um exército, marinha e força aérea pequenos, declara que não tentara reconquistar pela força os territórios perdidos, embora não tenha aberto mão de suas reivindicações sobre eles. Essa nova Alemanha é vista com suspeita e receio pelos Estados soviéticos e por pequenos grupos de países ocidentais. O raciocínio desses círculos é que a Alemanha já atacou seus vizinhos duas vezes antes, rearmou-se apesar de duas derrotas, que os generais da “nova” Alemanha são os mesmos que serviram a Hitler, sendo de esperar que ela faça uma terceira tentativa, atacando dessa vez a União Soviética, para recuperar os territórios perdidos.

A esse argumento, os lideres dos países da OTAN e a maioria da opinião pública respondem que tais suspeitas não têm fundamento, e que, na realidade, são fantásticas: não é esta uma Alemanha nova e democrática, não declararam seus lideres que desejam a paz, não é o exército alemão tão pequeno (doze divisões) que não pode constituir ameaça a ninguém? Se considerarmos apenas as manifestações do governo alemão (acreditando que fale a verdade) e a atual força da Alemanha, então, realmente, a posição da OTAN parece convincente. O argumento de que os alemães atacarão uma terceira vez porque o fizeram antes é bom, mas não nega que a Alemanha se tenha modificado completamente.

Erich Fromm faz a psicanálise da Alemanha

Nesse caso, como nos exemplos psicológicos acima, só deixaremos de fazer suposições ao começarmos a analisar as forças determinantes da atitude alemã. A Alemanha, a última a se unir aos grandes sistemas industriais do Ocidente, começou sua espetacular ascensão depois de 1871. Em 1895 sua produção de aço já atingia o nível da Grã-Bretanha, e em 1914 estava muito a frente da Inglaterra e França. A Alemanha tinha uma máquina industrial extremamente eficiente (apoiada principalmente numa classe operária trabalhadora e instruída), mas faltavam-lhe matérias-primas e eram poucas as suas colônias. Para realizar a plenitude de seu potencial econômico, precisava expandir-se, conquistar territórios e matérias-primas na Europa e na África. Ao mesmo tempo, a tradição prussiana a dotara de uma casta de oficiais, com longa tradição de disciplina, lealdade e dedicação ao exército. O potencial industrial, com sua tendência inerente de expansão, combinada com a capacidade de ambição da casta militar, foi a mistura explosiva que levou a Alemanha à sua primeira aventura guerreira de 1914.

Embora o governo alemão de Bethmann-Hollweg não procurasse a guerra, foi a ela levado pelos militares, e três meses depois de deflagrada esta, aceitava os objetivos bélicos apresentados ao governo pelos representantes da indústria pesada alemã e dos grandes bancos. Tais objetivos eram mais ou menos os mesmos formulados pela Alldeutscher Verband, a ponte-de-lança política desses círculos industriais desde a década de 1890: as reservas de carvão e ferro da França, Bélgica e Luxemburgo, colônias na África (especialmente Catanga), alguns territórios no Oriente. A Alemanha perdeu a guerra, mas os mesmos militares e industriais conservaram o poder, apesar da revolução que parecem ameaçá-los, por um curto período.

Na década de 1930, a Alemanha voltara à posição de superioridade que desfrutava antes de 1914. Mas a grande crise econômica, com seus seis milhões de desempregados, ameaçava a estrutura do sistema capitalista. Comunistas e socialistas não estavam longe de dispor de metade do eleitorado, e além disso os nazistas reuniam milhões sob sua pretensa plataforma anticapitalista. Os industriais, banqueiros e generais aceitaram a oferta de Hitler, de esmagar os partidos da esquerda e os sindicatos, e criar um espírito nacionalista, bem como um novo e forte exército. Em troca. permitiram pôr em prática um programa racial, que seus aliados militares e industriais não viam particularmente com bons olhos, mas ao qual também não faziam grandes objeções.

A única força nazista que poderia ter constituído uma ameaça para os industrialistas e o exército, as tropas de S. A., foi destruída pelo assassinato em massa de seus lideres, em 1934. O objetivo de Hitler era a execução do mesmo programa de Ludendorff em 1914. Dessa vez, os generais se mostraram mais relutantes em planejar a guerra. Mas contando com as simpatias dos governos ocidentais, Hitler pôde convencê-los de seu talento superior e da exatidão de seus planos militares. Conseguiu-lhes o apoio para a guerra de 1939, cujos objetivos foram os mesmos do Kaiser em 1914. Embora o Ocidente tivesse simpatias para com Hitler até 1938, e não protestasse contra suas perseguições raciais e políticas, a situação modificou-se quando ele deixou de proceder com cautela e forçou, assim, a Grã-Bretanha e a França à guerra.

A partir de então, a guerra contra Hitler foi pintada como uma luta contra a ditadura, embora fosse, como a de 1914, uma guerra contra um ataque à posição econômica e política das potências ocidentais. Depois da derrota, a Alemanha valeu-se da lenda de que a Segunda Guerra Mundial fora uma luta contra a ditadura nazista, afastando os líderes nazistas mais evidentes e conhecidos (e pagando somas consideráveis aos judeus e ao governo de Israel, como indenizações), e pretendendo com isso ser a nova Alemanha totalmente diferente da Alemanha do Kaiser ou de Hitler.

Mas na verdade a situação básica não se alterara. A indústria alemã é hoje tão forte quanto o fora antes da Segunda Guerra Mundial, embora o território se tenha reduzido um pouco mais. A classe militar alemã é ainda a mesma, embora os Junkers tenham perdido as bases econômicas na Prússia oriental. As forças do expansionismo alemão, que existiam em 1914 e 1939, são ainda as mesmas, desta vez dotadas de uma carga de dinamismo emocional mais poderosa: o clamor pela volta dos territórios “roubados”. Os líderes alemães aprenderam: partem, dessa vez, de uma aliança com os Estados Unidos, ao invés de terem a mais forte potência do Ocidente como seu inimigo potencial. Dessa vez, uniram-se a toda a Europa ocidental, com uma boa possibilidade de surgirem como a primeira potência de uma nova Europa Federada, já sendo a maior potência, econômica e militarmente.

A Nova Europa, liderada pela Alemanha, será tão expansionista quanto a Velha Alemanha; ansiosa em recuperar os antigos territórios alemães, constituirá uma ameaça ainda maior à paz. Não quero dizer, com isso, que a Alemanha deseja a guerra, e certamente muito menos a guerra termonuclear. O que quero dizer é que a Nova Alemanha espera atingir seus objetivos sem guerra, pela simples ameaça de uma força esmagadora, quando dela dispuser. Mas isso provavelmente levará à guerra, pois o bloco soviético não se deixar. ficar observando impassivelmente o fortalecimento da Alemanha tal como a Grã-Bretanha e a França fizeram em 1914 e 1939.

O essencial, portanto, é que permaneçam as forças econômicas, sociais e emocionais que produziram duas guerras em vinte e cinco anos e que provavelmente produzirão outra. Não que alguém deseje a guerra; tais forças operam subterraneamente e levam a certos fatos que provocam a guerra. Somente sua análise nos pode ajudar a compreender o passado e prever o futuro — não uma interpretação que se limite à observação dos fenômenos existentes neste momento.


Que fique para nós a lição de Erich Fromm, Karl Marx e Sigmund Freud, de que não devemos nos ater a análises superficiais e conclusões apressadas. Todos eles mergulharam mais fundo em suas áreas, tentando compreender as forças internas (seja em um indivíduo ou nação) que levam às ações e comportamentos de seus objetos de estudos.

As coisas são muito mais complicadas do que parecem na TV e nas redes sociais.

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Um Ser PensanteErich FrommHistóriaPensadoresbehaviorismo,psicanálise,psicologia,sociologiaO texto a seguir foi extraído do livro 'Meu Encontro com Marx e Freud', do filósofo e psicanalista Erich Fromm. Sendo Karl Marx e Sigmund Freud suas maiores influências, Fromm dedica este livro a expôr, sob diversos aspectos, semelhanças entre os pensamentos de ambos. Até este momento do livro, já...Mais que artigos de opinião, uma busca pela Verdade.