Derrota em 2016 - a auto-crítica que o PT não fez
Derrota em 2016 – a auto-crítica que o PT não fez

Reflexões

Este artigo também poderia se chamar “aos meus amigos petistas”. Não estou sendo irônico, muito pelo contrário: pessoas que compartilham dos ideais de justiça social, de oportunidades para todos, de construção da sociedade pelas mãos do povo e de que nenhum homem deve servir de meio para os fins de outro homem – entre muitos outros princípios – serão sempre meus amigos.

Se uma análise sobre o Partido dos Trabalhadores pretende ser justa, imparcial, não pode desconsiderar duas coisas que nele existem de bom: a sua história e a sua militância. Mas, apesar do respeito que tenho por vocês, eu não posso me furtar às minhas reflexões — e algumas poderão ser doloridas aos petistas mais apaixonados.

O que aconteceu com o PT?

Minhas reflexões são motivadas pelos resultados dessas eleições de 2016. Dos “blogs progressistas” aos portais internacionais, dois fenômenos chamaram a atenção: a descrença da população pelo sistema político, expresso no número avassalador de votos brancos, nulos e abstenções (BBC); e a derrota esmagadora do PT, perdendo espaço inclusive dentro da própria esquerda — para o PSOL (BBC) e PC do B.

Bom, mas… o que aconteceu com o PT? Como um partido que conseguiu permanecer 3 mandatos e meio na presidência, agora mal consegue eleger vereadores nas cidades médias Brasil afora? Culpa da mídia burguesa? Dos partidos golpistas? Do Judiciário imperfeito? Do povo? Estes e outros motivos são apontados pelos petistas apaixonados que ainda restam nas fileiras da militância e dos simpatizantes. Mas, na qualidade de um ser pensante, tem uma formiguinha na minha cabeça que não pára de perguntar: mas e o PT? O PT não errou nada? Ninguém no partido nunca cometeu um erro sequer em todos estes anos de denúncias, desconfianças e delações? Não há absolutamente nada a repensar?

Hegemonia perdida

Não foi por falta de experiência. Quando eu era adolescente, o PT estava em plena hegemonia no Rio Grande do Sul. Vitórias eleitorais no estado, capital e municípios. Houve um ano, inclusive, em que essa força contagiou o meu estado, o Paraná, onde o partido conquistou as maiores cidades do estado e, por muito pouco, não levou a capital. “Eu entendi o recado das urnas”, disse na ocasião o oponente. Porém, administrações mal-sucedidas, os boatos de velhos vícios (os mesmos dos outros partidos) e denúncias de corrupção (lembram do caso da sede de Porto Alegre?) fizeram tudo ruir.

Ainda assim, pouco depois, Lula e Dilma consolidaram hegemonia semelhante a nível nacional. E, mais uma vez, o PT botou tudo a perder.

Sim, este é meu pensamento: foi o PT que botou tudo a perder. E, para ser melhor compreendido, vou fazer comparações simples: se eu faço a minha lição de casa, se estudo pra valer, vou à biblioteca, e mesmo assim não consigo um bom desempenho, eu posso cogitar “culpar” a estrutura da escola, o modelo de ensino, a dedicação do professor. Agora, se, depois da aula, eu chego em casa e vou caçar Pokemon e só pego nos livros na última hora, então eu não posso reclamar da vida. Se eu saio para viajar e tomo as precauções básicas, tranco a casa, solto o cachorro, ligo o alarme, e mesmo assim minha casa é roubada, eu posso xingar o ladrão. Mas eu não posso reclamar da sorte se eu viajo por uma semana inteira e largo a porta de casa aberta.

Atirando em todo mundo

Vejo petistas reclamando da mídia, da oposição, até mesmo dos outros partidos de esquerda, mas eu não vejo, nem da alta cúpula, nem da militância, um “a” sobre si mesmos.

É claro que a mídia aumenta e foca no que lhe interessa. Mas o PT não sabe disso? Sabe sim! Mas a alta cúpula preferiu repetir os mesmos velhos vícios. Preferiu comprar governabilidade com maletas de dinheiro. Não interessa se os subterfúgios utilizados são legais ou não, não interessa se tal empresa utilizada no esquema é pública ou privada. O que interessa é que o PT usou dinheiro público pra comprar apoio no Congresso, e não venham me dizer que isso é mentira. Também não adianta dizer que o PSDB também fazia isso ou fazia pior. Se eu quisesse um partido corrupto no poder, votaria no PSDB. Mas não. O povo acreditou que o PT seria diferente. E o PT? Com a mão esquerda, tirou parte da população da miséria absoluta, e a colocou na miséria. Com a direita, traiu essa mesma população, comprando apoio e desviando dinheiro público para campanhas. Assim, foi ele mesmo que deu a faca para a mídia lhe golpear.

Também não adianta colocar a culpa no Congresso. Qualquer pessoa com um mínimo de cérebro sabe que este sistema representativo é uma farsa. Não é à toa que, já há algum tempo, um em cada três brasileiros não vota em qualquer candidato. Qual foi a proposta de um sistema político diferente que o PT apresentou? Cadê as grandes idéias do partido? Qual a fórmula para que o papel da população no jogo político não se limite ao voto? Para que todos possamos participar da vida política do país de forma mais efetiva, em vez de ficarmos reféns dos mesmos candidatos das oligarquias, escolhidos nos porões dos partidos, ano após ano? Nem uma simples adaptação do orçamento participativo para a esfera federal ou estadual se foi capaz de apresentar.

Assim, foi obrigado a aliar-se ao PMDB para continuar governando. O final todos já sabem, e não adianta ficar choramingando. O erro foi do PT, que nunca teve a menor intenção de mudar o modo como se faz política no país — e vou dar uma prova disso.

Subestimando o povo

Não faz muito tempo, eu aprendi que existe um tipo de governabilidade coercitiva, onde o partido no executivo que não tenha apoio no legislativo (caso da Dilma), apela para a população; para que ela faça pressão sobre o legislativo, e este aprove os projetos de interesse do país.

Eu aprendi sobre isso, mas parece que ninguém na cúpula do PT nunca nem sequer ouviu falar. Isso ficou claro pra mim em 2013. O povo saiu às ruas, e não foi pra gritar “fora Dilma” daquela vez. Saiu às ruas gritando “socorro, quero ser representado, quero ter minha voz ouvida!”. O PT não ouviu. Como nunca teve um projeto para o país que não fosse o das maletas, dos cargos e dos ministérios, não teve resposta para este anseio do povo. Portanto, também não adianta agora ficar falando que o povo não sabe votar, porque foi o PT que perdeu a chance de trazê-lo para si. O PT não fez a lição de casa.

Aliás, este fato traz à tona mais um erro gravíssimo que o PT cometeu durante estes anos todos: afastou-se da população, de grandes setores da classe trabalhadora. Não adianta ficar se enganando — e tentar enganar o povo! — convocando grupinhos de sem-terra para queimar pneus e dizer que é “o povo” protestando. O perfil do trabalhador brasileiro mudou e o partido não acompanhou, mas nem de longe!!! O discurso não tem mais apelo!!! O pequeno comércio, o microempresário. O PT não tem o mínimo apelo com este público. No meu setor — informática –, por exemplo, o PT não existe. Existe, sim, um discurso do Lula no YouTube pedindo voto pra Roseane Sarney, enquanto os poucos profissionais da área que têm o coração mais à esquerda torceram e vibraram com a vitória do Flávio Dino. Ou seja, não só o PT não tem base, como os peixões do partido ainda queimam a própria cara.

Parar de culpar os outros

E não adianta acusar estes setores de serem de “classe média”. Na verdade, o PT precisa parar de acusar os outros de tudo.

Parte da cúpula do partido precisaria mesmo é tomar vergonha na cara e parar de culpar a tudo e a todos, sendo que eles mesmos não fazem sua lição de casa. A outra parte da cúpula, que manteve vergonha na cara desde os bons tempos, precisa acordar para o presente, porque só com as histórias das lutas do passado, o PT só vai convencer os saudosistas mais apaixonados — e, ainda assim, desilusão existe.

Quanto a militância e simpatizantes, especialmente estes mais antigos, eu tenho de dizer que os respeito e os entendo. Que admiro a dedicação de vocês. Porém, por favor, tomem cuidado com essa falta de auto-crítica de seus líderes.

Gostaria de dizer que meus princípios continuam os mesmos. Mas eu não acredito mais nos líderes que vocês acreditam. Na verdade, faz algum tempo que não acredito em líderes. Se algo novo surgir, será obra de muitos, não de seres supostamente iluminados.

É o parecer,

um ser pensante

Um Ser PensantePolítica nacionaleleições 2016,PTReflexões Este artigo também poderia se chamar 'aos meus amigos petistas'. Não estou sendo irônico, muito pelo contrário: pessoas que compartilham dos ideais de justiça social, de oportunidades para todos, de construção da sociedade pelas mãos do povo e de que nenhum homem deve servir de meio para os fins de outro...Mais que artigos de opinião, uma busca pela Verdade.